(Sorry for english readers, this time is portuguese only – I think I’ll translate it later. Thanks for understanding)
(Pra ler ouvindo Rome e Love Like a Sunset (Planetarium), do Phoenix. Não sei bem porque, são um pouco bregas, mas fez sentido pra mim)
Olá. Algumas coisas vêm martelando minha cabeça ultimamente, e já que eu não posso postar nada do que eu tou fazendo ultimamente, esse parece ser o momento certo pra discorrer sobre, aqui. A discussão sobre quadrinhos no Brasil outro dia no Twitter fomentada pelo companheiro de aventuras Pablo Casado me incentivou a escrever aqui. Achei legal também a idéia de fornecer um ponto de vista de quem está começando nas hq profissionalmente, mas não exatamente chegou lá ainda. O texto não está muito organizado, e tem cara de bronca na maior parte dele, mas pelo menos é sincero.
Quadrinhos. Parece que foi ontem, há uns dois anos atrás, que eu decidi que ia voltar a fazer hqs, e dessa vez, a sério. Eu decidi que ia tentar viver de quadrinhos. Tive que pensar bastante pra chegar nessa conclusão, afinal, isso significava sacrificar bastante coisa em prol de uma satisfação pessoal. Sem contar que isso envolve uma série de parâmetros a se considerar, sendo o mais importante:
“Você está preparado?“. Autocrítica é importante, fazer quadrinhos não é fácil, e ninguém nasce sabendo fazer. Tem que praticar, se entregar, se expôr e entender que seu trabalho nunca vai deixar de ter defeitos. Saiba receber uma crítica. Não, elas não doem. A banalização de todos os meios artísticos que a acessibilidade da internet trouxe ajudou a esconder a importância da qualidade e ajudou o mundo a celebrar a mediocridade. Acho extremamente válido alguém publicar seus quadrinhos pra receber feedback no começo, contanto que isso sirva de base para alguma evolução. Fazer um quadrinho independente com produçãoe cara de profissional e conteúdo extremamente amador não vai te levar a lugar nenhum. Se é essa a ambição, ok, só entendam que isso fere um pouco o mercado a partir do momento que você vira conhecido e influente, mas seu trabalho não é o suficiente pra isso. Mire ser reconhecido pelo seu trabalho, e por nada mais. Evolua a ponto de as pessoas te procurarem, e você não precise mais procurá-las. Não seja reconhecido pela sua cara superexposta nas mídias sociais e eventos, e sim pelo quadrinho que você está vendendo no seu estande. Nos quadrinhos não há lugar para celebridades, então se você está entrando nisso pelo fator cool, não o faça. Existem meios mais rápidos e fáceis pra ser popular. Quadrinista não é um rockstar nerd. Não, não é. Faça sempre o seu melhor (pelo menos o melhor possível no tempo que você teve), e o mais importante, ame muito o que você produz.
$$. Outro contraponto bem relevante seria desistir de me mudar da casa de meus pais e ganhar independência financeira por um bom tempo, já que tudo envolvia gastar uma grana por um tempo e trabalhar menos pra ter tempo de fazer as hqs do jeito que eu queria, e a tempo das convenções. As convenções, a propósito, são um gasto razoável. Dá pra imaginar, lendo meus posts anteriores aqui nesse blog, mesmo que alguns de vocês questionem se era mesmo necessário pra mim ir tão longe em busca dos meus objetivos (e eu não vou dar a mínima porque eu sei que era, ha!). De qualquer forma, eu queria sair de casa, e quando se tem alguém que quer morar com você ansioso pra isso, é complicado. Felizmente essa pessoa, a única pessoa que eu amo mais do que os próprios quadrinhos, só me incentiva cada vez mais a continuar nesse caminho. E eu amo ela mais ainda por isso. Mesmo assim, não recomendo a ninguém só fazer quadrinhos logo de cara, é muito difícil seu dinheiro não acabar antes de você começar a ganhar suficiente com eles pra se sustentar. Mesmo porque é bom experimentar com outros meios, os quais são sempre um jeito de se fazer grana enquanto a coisa não acontece, e ainda assim evoluir também nas hqs.
Viver em outra realidade temporal. No mercado editorial, TUDO demora dez mil vezes mais do que no mundo normal. Por um lado é bom, porque te permite ganhar dinheiro com outras coisas, ou até mesmo trabalhar em vários projetos ao mesmo tempo. Mas é frustrante esperar mais de um ano pra saber se você vai conseguir publicar um projeto. É insuportável. Muita gente fala que a espera é a pior parte desse trabalho, e eu concordo com todas elas. Trabalhos chatos e burocráticos demoram pouco pra acontecer, enquanto cada passo para uma hq ser publicada numa editora demora semanas. Um email é respondido por mês. Se você tiver sorte. Então esteja preparado para longas esperas, ou pelo menos deixe suas unhas crescerem.
Ser um eremita. Quadrinhos no momento não são a mídia mais popular (estou falando de quadrinhos mesmo, não o universo que cerca as IPs famosas), e muitas vezes as pessoas vão te dizer pra desistir, porque é uma coisa muito fechada, e você vai ganhar mais fazendo desenho industrial porque você desenha bem. A maioria das pessoas, incluindo seus amigos, não vão fazer a mínima idéia de como abordar a sua profissão. Não é culpa deles. E nem sua. Fazer quadrinhos não é ser popular. Pelo contrário, é extremamente solitário a maior parte do tempo. É você na frente da prancheta/pc fazendo aquilo às vezes pra você mesmo, e às vezes pros outros. É enlouquecedor em alguns momentos. É não sair de casa por dias e dias e dias e mais uns dias. É desistir de sair com os amigos porque além de trabalhar você ainda tem que terminar um roteiro. É muitas vezes trocar alguém que você ama por algo que você ama, e se sentir um lixo por isso. E sentir ainda pior por se sentir assim a respeito de algo que você ama (complexo, não?).
Resumindo, tem que gostar pra caralho. Você vai ouvir muitos Nãos e alguns Sims. Pior que isso, você não vai ouvir esses Nãos serem ditos, mas pelo menos o Sim é anunciado e compensa as esperanças perdidas nas outras tentativas. Você vai ter que passar uns perrengues. Vai ter que desistir de várias coisas boas da sua vida por tempo indeterminado. Vai constantemente se questionar se vale a pena todos esses sacrifícios por isso. Mas se você tem esse formigamento no corpo, que te diz que não dá pra fazer outra coisa, que não existe outra opção, que isso tem que ser feito, não importa como, vá em frente. Se você realmente amar os quadrinhos, eles vão te amar de volta. Como nada no mundo. Todo esse sacrifício compensa um dia. Pensando no meu caso, dois anos pra chegar aonde estou chegando agora não foram tanto tempo. E eu não trocaria esses dois anos de trabalho duro por nada. Vá às convenções. Conheça muita gente que entende o que você está passando. Que ama aquilo que faz tanto quanto você. Entenda que você não está sozinho, e que vale a pena sim, os outros que são limitados de não entenderem. Você não vai ficar rico. Não vai ficar popular. Mas provavelmente vai fazer muita gente feliz, além de você. É claro que sim, a melhor parte dos quadrinhos são quando as pessoas lêem os seus. E não tem nada melhor do que ver os olhos de alguém saltando no meio do plot twist da penúltima página. Escrevi esse texto mais como um desabafo, porque estou saindo de um momento difícil da minha vida com os quadrinhos. Mas eu tenho uma estratégia pra quando começo a desistir (experimentem se um dia vocês quiserem jogar tudo fora porque tá difícil): eu pego uma das edições da Demo v2 (meu quadrinho favorito) que comprei com a própria Becky Cloonan e leio. Quando eu viro a última página, já lembrei porque eu faço o que eu faço hoje. Espero que um dia faça alguém sentir isso com as minhas próprias histórias.
abraços a todos, até o próximo post!